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CIA FRAGMENTO DE DANÇA

Sob a direção de Vanessa Macedo, a Cia Fragmento de Dança é um núcleo artístico de pesquisa e produção em dança contemporânea, sediado na cidade de São Paulo – SP, desde 2002. Ao longo dos seus anos de existência, construiu uma linguagem estética autoral interessada em discutir gênero, autoimagem, fricção entre vida e obra. Nos últimos anos, tem se voltado para a investigação do autodepoimento na cena, a experiência da alteridade e a dimensão política do falar sobre si em processos de criação. Se por um lado, a pesquisa sobre memórias e dramaturgias de testemunhos se faz presente, por outro, as perguntas sobre nossas potências e contradições como seres sociais e políticos também acompanham o grupo. As criações passam por esses espaços de tensão.
 

A Cia tem uma intensa atuação na capital paulistana, participa constantemente de festivais nacionais e internacionais e já foi contemplada pelos principais prêmios e editais de incentivo à Dança. Recebeu o prêmio APCA na categoria espetáculo com ATO (2025) e coreografia com o espetáculo Erga Omnes (2023), além das indicações de melhor elenco e espetáculo para Erga Omnes e espetáculo para Dança para Camille (2018) e Amor Mundi (2020). O projeto Terça Aberta foi indicado também ao Prêmio APCA (2020) e recebeu o Prêmio Denilto Gomes de difusão (2017), assim como a Mostra Mulheres em Cena recebeu o Prêmio Denilto Gomes (2023) na categoria difusão de dança.

REPERTÓRIO

Acaso Caos

A proposta coreográfica se desenvolveu partindo da ideia de contágio. Como nossos gestos, ações e comportamentos contagiam uns aos outros e o que isso diz sobre nós e sobre nossas formas de partilhar um ambiente comum.

“A epidemia da dança”, “as freiras que miavam”, “os risos da Tanzânia”.  Ou ainda, pessoas que dançam até morrer, freiras que miam como se fossem gatos, crianças que não conseguem parar de rir. No que esses episódios se assemelham? Fatos que foram conhecidos como “histeria coletiva” no qual as pessoas contaminam umas às outras com seus estados corporais. Uma espécie de contágio psíquico ou cultural que gera uma reação em cadeia. A maioria delas aconteceu com mulheres. Uma das hipóteses é que essa “histeria coletiva”, hoje chamada “doença psicogênica de massa”, pode ser disparada em ambientes muito opressivos. O que isso diz sobre situações da nossa modernidade?

A composição coreográfica, portanto, parte dessas articulações para construir um espaço que funde passado, presente e futuro. Quase como um passeio pela Idade Média que se relaciona de forma distópica com a contemporaneidade.

Ato

APCA 2025 na categoria espetáculo de dança. ATO é um manifesto escrito por gestos. Uma orquestra movida por corpos. Ainda há tempo para tantos “eus” se implicarem num “nós”? Em ATO, a  Cia Fragmento de Dança convida artistas para se juntarem ao elenco, construindo uma estrutura coreográfica que convoca o movimento em uníssono para fortalecer a imagem de grupo. São muitas vozes juntas criando tensões polifônicas. A pesquisa surgiu inspirada na forma como as pessoas se organizam em atos e manifestações políticas. Os gestos são os disparadores de uma construção que se complexifica na insistência, na repetição, no ritmo e nos corpos que se organizam como se fossem um quadro vivo. Uma das primeiras referências investigadas foi a performance do coletivo feminista chileno “Lastesis”  na qual mullheres com olhos vendados e gestos coreografados  gritaram “el violador eres tú" (o estuprador é você) nas ruas do Chile e, depois, em várias partes do mundo. Seriam esses espaços a possibilidade de um comum? Ainda que de forma passageira, por alguns momentos, nos encontramos como grupo. O que isso nos diz?

No Te Vayas

Numa busca incansável por si mesmo, tateamos o impossível. Talvez um outro tempo se anuncie, dizendo que não há fim, é sempre meio de caminho.  Procura. Em No te Vayas, dois corpos testemunham a força do invisível. E lá, num espaço-sensação que não se define na forma, nem no tempo, criam seu pacto de transcendência. Sugerem ser duplo e avesso um do outro. Espelho. Sombra. É possível que o mito da alma gêmea faça sentido. Nele, em busca de uma resposta sobre o que é o amor, cria-se a narrativa de que, no princípio, éramos seres de quatro braços, quatro pernas e duas cabeças. Ao desafiarmos os deuses, fomos cindidos ao meio e condenados a viver à procura da nossa metade. Não há confronto, nem celebração. Dançamos a  incompletude que se camufla na brevidade do toque. Do encontro. Da desesperança.

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